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quinta-feira, 29 de março de 2007

O horizonte é verde-oliva

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GermanoCWB

O horizonte é verde-oliva

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Augusto Nunes - Manaus

Encarregado de buscar algum tipo de ajuda para o combate a crônicas carências que prejudicam o desempenho do 5º Batalhão de Infantaria da Selva, o capitão do Exército pousou em Brasília dias depois de ter deixado São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro. Fica ali a sede da unidade que reúne 450 militares e monitora a movimentação de outros 300 soldados distribuídos por meia dúzia de destacamentos. A esse pequeno contingente - menos de mil cidadãos fardados - cumpre manter incorporada ao mapa do Brasil a região da Cabeça do Cachorro, uma vastidão territorial nas vizinhanças da Colômbia e da Venezuela.


Caso se limitassem à vigilância das fronteiras, já seriam poucos. Mas os homens e mulheres do 5º BIS cuidam de muito mais.


O Ibama mantém na região dois funcionários. Crachás do Incra e da Funai aparecem por ali com a periodicidade dos cometas. A Polícia Federal anda ocupada demais com metrópoles conflagradas. Poupadas de sobressaltos, quadrilhas internacionais usam o transporte fluvial para enriquecer com o tráfico de drogas. Faltam hospitais, médicos, remédios, escolas. O poder público é o grande ausente naquele mundo. Sobrou o Exército. E sobra para o Exército.


É nos quartéis que procissões originárias de comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas ou da periferia flagelada das cidades buscam assistência médica, professores, comida, proteção contra pastores da desordem e incendiários das matas.


Castigados por soldos raquíticos e verbas mofinas, os militares fazem o que podem. Parece pouco. É muito para para os mais aflitos. Para alguns, é a vida. Fosse mais sensato o país, seriam escancaradas ao emissário do 5º BIS as portas de todos os gabinetes da capital. Mas isto é o Brasil.


Do aeroporto, o capitão seguiu para a conversa com um alto funcionário do Ibama. Talvez conseguisse algum socorro. A audiência fora combinada semanas antes. O oficial teve de esperar duas horas até ser recebido pela carranca atrás da mesa. Com polidez, registrou que o atraso o impediria de cumprir compromissos igualmente relevantes. O anfitrião não gostou do que ouvira. - Quando vocês mandavam no Brasil, não falavam com ninguém - irritou-se. - Só recebiam a gente na cadeia.


O oficial reagiu serenamente à provocação. - Creio que o senhor está se referindo ao período dos governos militares - certificou-se. - Devo informar que tenho apenas 35 anos.


Tinha 15 quando a restauração democrática devolveu aos civis o controle do país. Nos anos de chumbo, não era sequer um brilho nos olhos dos seus pais. Mas é hostilizado com freqüência por veteranos da guerra travada num país que não conheceu. "Muitos homens do governo não conseguem entender que as coisas mudaram", lastima um general da reserva. "Prisioneiros do passado não enxergam o que fazem os 25 mil militares em serviço na Amazônia. Sem eles, o presente seria bem pior. E talvez não houvesse futuro".


Essa espécie de miopia não se manifesta entre os habitantes do lugar. Ainda são poucos para um território tão vasto, mas bastam para sepultar o "deserto verde" no mausoléu das velharias. Enquanto aprendem a conviver com a maior floresta tropical do planeta, esperam que o poder público descubra a Amazônia. E esperam que emissários dos quartéis recebam do governo o socorro negado na primavera ao capitão do Rio Negro.

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